domingo, 29 de abril de 2012

É GENÉTICO???

Sabe-se que não há uma causa única para o transtorno bipolar do humor. As pesquisas sugerem que é freqüentemente herdado, relacionado a uma falta de estabilidade na transmissão dos impulsos dos nervos no cérebro, sendo que esse problema bioquímico torna as pessoas com distúrbio bipolar do humor mais vulneráveis às tensões emocionais, sociais e físicas. Fatores como contratempos na vida (estresse), o uso de substâncias psicoativas (por exemplo, estimulantes como cocaína e anfetaminas), a privação de sono ou outra estimulação excessiva podem levar a um desequilíbrio nos mecanismos que regulam o funcionamento do cérebro. Essa teoria de interação entre uma vulnerabilidade biologicamente determinada associada à influência de estímulos psicológicos, sociais ou físicos é semelhante a teorias propostas para a compreensão de outras condições médicas, como o diabetes e a hipertensão dentre outras. Por exemplo, na doença coronariana, a pessoa pode herdar uma tendência a ter níveis elevados de colesterol ou ter pressão alta, que gradualmente diminui a quantidade de oxigênio que chega ao coração. Além disso, uma forte tensão emocional pode contribuir para o desencadeamento de dor no peito ou de um infarto, em decorrência de uma baixa importante no aporte de oxigênio na musculatura do coração. O tratamento no caso é medicamentoso, em um primeiro momento, mas é importante que se façam mudanças no estilo de vida para reduzir o risco de que isso se repita e na tentativa de melhorar a qualidade de vida do paciente No caso do transtorno afetivo bipolar, a despeito da base biológica do transtorno e dos sintomas físicos que apresenta, sua manifestação é psicológica e comportamental, por meio de temperamentos e suas flutuações, pensamentos, percepções, linguagem, comportamentos, sentimentos e intelecto. E esses aspectos apresentam-se na interação com membros da família, amigos, colegas, no meio social mais amplo, na vida profissional dentre outros. (Goodwin e Jamison, 1990). importante ressaltar que quando se faz o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar, além dos sintomas, do curso e da história da doença, devem ser levados em conta o mundo interno, o grau de sofrimento do paciente e a interpretação subjetiva que ele dá ao seu problema. Nesse sentido é que no atendimento ao paciente valorizamos a escuta e a compreensão do sentido que ele atribui ao seu sofrimento e à sua doença, dando ênfase à sua experiência subjetiva. Esquematicamente, podemos estabelecer uma ponte entre o modelo médico, para a compreensão de doenças orgânicas, tais como o diabetes, a hipertensão e o transtorno bipolar do humor. No caso do transtorno afetivo bipolar, existe uma vulnerabilidade genética que predispõe o paciente, quando submetido a estressores psicológicos, sociais ou físicos, a ter um problema no funcionamento de seus neurotransmissores. Sabe-se, também, que alterações no ciclo circadiano (sono-vigília) podem interferir no adoecer, produzindo manifestações comportamentais ou sintomas. Além de ter uma etiologia multifatorial, a doença é cíclica e recorrente, isto é, tende a se repetir ao longo da vida e cursa com episódios depressivos e/ou eufóricos (maníacos). O paciente deve ter um papel ativo no seu tratamento. Ele deve conhecer todos os aspectos de sua doença, saber identificar e reconhecer o sintoma – sinal, a duração e os mecanismos de prevenção da doença. Deve aprender a identificar o sintoma – sinal que sinaliza o início da crise, não sendo o mesmo para todos os pacientes. Por exemplo: o aumento do desejo sexual e a sensação de maior vivacidade intelectual. Muitas vezes, esse sintoma-sinal pode ser discreto e passar despercebido pelo paciente e por seus familiares. Sua identificação precoce implica a utilização de estratégias para evitar a progressão da crise, como, por exemplo, procurar o médico, voltar a tomar ou reforçar a medicação dentre outras. É necessário que se promovam mudanças no estilo de vida do paciente, para diminuir o risco de novos episódios e melhorar sua qualidade de vida. É importante ter em mente em que fase da doença o paciente se encontra, pois o tipo de intervenção em cada uma delas deve ser diferente. ABORDAGEM PSICOSSOCIAL NO TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR Os objetivos dos tratamentos psicossociais seriam: (1) diminuir a negação da doença; (2) aumentar a aderência ao tratamento; (3) diminuir a freqüência das crises; (4) melhorar o relacionamento com familiares; (5) restabelecer o funcionamento ocupacional e social e (6) diminuir o trauma emocional caracterizado por rejeição e estigma. Esses objetivos amplos podem ser atingidos por meio de diferentes metodologias aplicadas isoladamente ou em conjunto, sempre visando à diminuição dos sintomas e à melhora da qualidade de vida do paciente. Assim, a abordagem psicoeducacional surge da necessidade de interlocução entre profissionais, pacientes e familiares, para juntos poderem dar sentido à experiência de adoecer, modificando atitudes e trabalhando ativamente na manutenção do bem-estar. Os objetivos dessa abordagem são oferecer informações específicas sobre o transtorno aos pacientes e seus familiares, o que é a doença, o reconhecimento dos sintomas, seus vários tratamentos, a medicação e seus efeitos naturais; aumentar o compromisso com as indicações terapêuticas, diminuindo a freqüência, a duração e/ou a intensidade das crises (Miklowitz, 1997). Do ponto de vista da família, essa abordagem procura ainda ajudá-la a compreender a pessoa que adoece e trabalhar os sentimentos de culpa, raiva e impotência, determinados pelo membro que adoeceu. Alem disso, a experiência de grupo propicia espaço para compartilhar experiências comuns, amenizar o isolamento social tão comum entre essa clientela e diminuir estigmas associados à doença mental. O trabalho psicoeducacional pode ser desenvolvido individualmente ou em grupo de pacientes e/ou familiares, orientado por profissional da área de saúde (médico, psicólogo, enfermeiro dentre outros) que tenha o conhecimento da doença e seja habilitado para o repasse das informações necessárias, para o manejo de dúvidas e acolhimento dos sentimentos que vierem associados ao tema discutido. É comum, nesse tipo de trabalho, o aparecimento de sentimentos ligados à resistência do paciente em aceitar o diagnóstico e o tratamento sugerido. A família cumpre um papel primordial no tratamento desse transtorno. É ela que é capaz de identificar uma crise e deve se mobilizar para procurar assistência e tratamento, até que o paciente tenha condições de cuidar sozinho de si mesmo. Além disso, deve garantir o uso da medicação, manter uma atmosfera em casa de maior tolerância, reduzir as expectativas profissionais do paciente a níveis realistas e encorajá-lo a participar do tratamento e de atividades pouco estressantes....... A análise dos resultados preliminares sugere que tratamentos psicológicos associados a tratamento medicamentoso trazem benefícios aos pacientes e familiares na aceitação e no manejo da doença. As intervenções psicológicas apresentam algumas diferenças fundamentais da convencional. São necessárias técnicas mais rápidas, diretivas e de curta duração, focalizando não só o paciente, mas também o suporte social. A partir dessa experiência, constatamos a possibilidade e a importância da inserção do trabalho psicológico em pacientes com doença afetiva dentro de instituição pública, como uma forma de otimizar o tratamento, assim como atender a um maior número de pessoas. É necessária uma revisão teórica e metodológica desse tipo de tratamento com grupos, para que se possa aprimorar nosso modelo de intervenção, a fim de que seja coerente e adequado a nossa realidade. Fonte: KEILA, Sílvia Belk. Aspectos psicológicos do transtorno afetivo bipolar. Disponível em http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/r266/art297.html

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